A Guerra aqui tão perto de Monica Hesse, um livro que aborda uma fase passada na II Grande Guerra nos EUA, a deportação, o realojamento para ser mais eufemista, dos japoneses, residentes no país, muitos deles de nacionalidade americana, considerados potenciais inimigos da América. Assim, num romance baseado em factos reais, a autora conta-nos a história de duas meninas adolescentes, uma de origem alemã e outra de origem nipónica que se tornam amigas num campo onde estavam deslocadas e, presas efectivamente, mais as suas famílias. Uma história de amor, de partilha, em condições particularmente difíceis, que termina com o afastamento de ambas por incompreensão das tentivas levadas a cabo para se salvarem mutuamente de um fim que poderia ser trágico, na sequência de um incidente grave ocorrido no campo de concentração de Crystal City. Mostra-nos, no fundo que, mesmo, ou sobretudo em condições adversas os extremos tocam-se, o amor ou o afastamento.

Olhar para trás de Juan Gabriel Vásquez, uma odisseia de uma família, três gerações que correram mundo, quase sempre com o objectivo revolucionário, na China de Mao, na Colômbia nos guerrilheiros da FDL, intervindo na cultura quando possível, pegando em armas quando isso passou a ser uma imposição. Sonhos caídos por terra e sobrevivendo, mas com imensas marcas físicas e psicológicas, chegaram a perceber que a verdade por algo que se ousa lutar nem sempre tem correspondência com a realidade daquilo que se acredita. Brutalidades e injustiças de braço dado, primeiro compreendidas, mais tarde odiadas. Olhar para trás é reviver com clarividência um passado cheio de contradições, com um fim que sublinha a paz interior que nunca é tardia.

Pensamento

Há sempre escolha entre voltar atrás para a segurança ou seguir em frente para o crescimento. O crescimento deve ser escolhido uma, duas, três e infinitas vezes; o medo deve ser superado uma, duas, três e infinitas vezes.

Abraham Maslow

Se os Gatos desaparecessem do mundo de Genki Kawamura, um livro simples e complexo em simultâneo. Confuso? Não é caso para tanto. Explico, simples, porque fala da vida, das memórias, das perdas de entes queridos, da morte e das hesitações sobre o que fazer perante a eminência do fim. Complexo, porque, tudo isso não é fácil de viver, de decidir, de adiar, do que podemos contar realmente na nossa vida, como nos separamos das coisas que gostamos, tudo questões que não podem ser relativizadas. Decidir perante a morte o que é realmente importante em vida.

De Noite todo o Sangue é Negro de David Diop, livro que junta vários e fortes condimentos. A guerra, as atrocidades sem nexo nela cometidas. A amizade mais do que "gémea" entre dois africanos que cresceram e se criaram juntos, juntos foram combater ao lado dos aliados (franceses) na guerra mundial com uma entrega e uma tenacidade que roça o sobre-humano. Um morre, outro sobrevive, essa a história, sentimentos de culpa que ficam marcados no sobrevivente. Fuga em direcção ao passado para compreendermos as raízes e culturas díspares. Romance envolvente. Também a fábula que gera sentimentos e sensações próximas de uma realidade cruel, amarga, real nos leva a perceber o porquê de atitudes limite.

Stoner de John Williams, um livro sobre uma vida normal, igual entre iguais, mas contada com uma doçura que nos amarra literalmente às suas páginas. Um filho de camponeses pobres tornado professor, subindo a pulso a difícil escada da vida, com dores de crescimento, dores de amadurecimento, dores de relacionamento, dores de envelhecimento, mas com uma vontade, abnegação, entrega e resiliência impressionantes. Nada como utilizar uma frase do posfácio, "se o romance tem uma ideia central, essa ideia é certamente a do amor, as muitas formas que o amor assume e todas as forças que se lhe opõem".

Pensamento

Só se é imortal enquanto se vive!

Philip Roth

 

Conhecer uma Mulher de Amos Oz, Amos Oz no seu melhor, uma história mais complexa do que poderá parecer, porque o protagonista principal, Yoel, um homem na busca incessante em se conhecer mas, essencialmente em conhecer a sua mulher, que morre prematuramente num acidente que nunca ficou claro, e todas as outras mulheres que povoam a sua vida, a sua mãe, a sua sogra e sobretudo a sua filha que tinha uma ligação mais química com a mãe. Yoel passava, devido às funções que desempenhava para o estado israelita, muito tempo ausente. Só após a "reforma" e a recusa literal e teimosa em retomar funções. A partir daí dedicou a sua vida, aparentemente calma, mas sempre preocupado com todos e todas que o rodeavam. O caminho certo, talvez, e digo talvez, porque a sua luta introspectiva não parou, terá encontrado no fim com a benção e empurrão de alguém que se tornou seu amigo incondicional.

Stalingrado de Vassili Grossman, um portentoso livro sobre um dos episódios mais marcantes da II Grande Guerra, a viragem de página da guerra, a defesa e contra ataque soviético sobre uma vitória anunciada por parte dos alemães. Uma descrição da voluntariedade de gente com pouco em termos materiais mas cheia de coragem, resiliência, capacidade de sofrimento e resoluta até ao limite em defender o que é seu, mesmo que seja residual. Personagens notáveis ornamentam o livro de maneira forte e apaixonante, com carácteres diferentes mas com um único fito, lutar até ao fim pela sua mãe pátria. Uma frase do livro que o retrata bem, "Se ficarmos muito tempo deitados debaixo de um poste telegráfico na estepe, acabamos por ouvir música, variada e complexa. O poste impregna-se de vento e canta.....É bom estar deitado, encostando a nuca ao poste, ouvir o violino, respirar, pensar....." Até o poste ...cair.