Pensamento

Passamos metade da vida à espera daqueles que amamos e a outra metade a deixar os que amamos.

Victor-Marie Hugo

Augustus de John Williams, sempre em crescendo, aprisionando o leitor nas páginas deste livro, uma curiosa biografia talvez do mais humano imperador romano, e curiosa porque é realizada através de cartas endereçadas entre figuras contemporâneas do seu "reinado", Caio Octávio Augustus, filho adoptivo de Júlio César, assassinado na ponta das facas no senado romano. Octávio trouxe a paz, o progresso e alguma equidade dos romanos fosse qual fosse a sua origem, geográfica ou social. Por detrás de uma figura aparentemente frágil, inesperirnte e indiferente, surgiu um estadista brilhante, rodeado de amigos sinceros, familiares nem sempre do seu lado e inimigos traiçoeiros e prontos a afrontá-lo. Cerca de 59 anos de poder, morreu aos 76, império que segurou e perpetuou durante muitas décadas apesar dos seus sucessores, Tibério, Calígula e Cláudio serem tortuosamente ineptos e violentos. A arte final, às portas da morte é uma carta dirigida a um amigo, Nicolau de Damasco, fantástica descrição do seu império e do que pensava e fez por ele. "A humanidade no seu conjunto sempre a achei bruta, ignorante e cruel, quer essas características estivessem cobertas pela túnica grosseira do camponês ou a toga branca e púrpura de um senador." Octavius.

As Velas ardem até ao Fim de Sándor Márai, o passado num livro introspectivo que nos agarra também a um final que não sendo o mais aguardado, não estaria fora de uns possíveis. Dois amigos de infância e juventude, separados durante 41 anos infindáveis e vividos de modo diferente. Cresceram até serem adultos, juntos numa amizade aparentemente inquebrantável, mas que afinal tinham por detrás histórias que doeram e ficaram por contar. Foram contadas num diálogo, quase monólogo, num cenário idêntico ao realizado quatro décadas antes, já idosos, para esclarcer mas que acaba por ficar no ar, sem assentar. Segredos, infidelidades, possibilidade de crime entre pessoas que pareciam inseparáveis. Tudo ou quase tudo vem ao de cima num encontro à luz das velas como tinha sido o último encontro....um hino à sinceridade, ao declamar a dor, à dor que ficou a pairar sem ressentimentos mas como um pântano que matou a verdade de um relacionamento. A dor mais profunda, a seta mais dolorosa é a que é desferida a quem se tem amizade.

O Grande Rebanho de Jean Giono, livro sobre a primeira grande guerra e tudo o que de horrível se vive numa guerra, emocionalmente muito forte, com discrições extremamente fortes e chocantes de cenas horríveis numa guerra em que tudo foi um caos, lutas cara a cara, trincheira a trincheira, com efeitos perfeitamente dramáticos e incontáveis. mas a mais valia deste livro é a forte componente descritiva do que se passou no que ficou para trás, ou seja, as famílias, as mulheres, as crianças, os animais, a força de trabalho. O sofrimento a que todos foram sujeitos perante uma ausência forçada e muitas vezes sem retorno ou com com retorno de um inválido. Efeitos de uma guerra caótica, impreparada, louca.

Pensamento

Que difícil é a vida dos homens. Eles não têm asas para voar por cima das coisas más.

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Homem Espelho de Lars Kepler, mais uma alucinante aventura protagonizada por Joona Linna, um polícia deveras especial, a história de algo que acontece e que parece impossível, mas que infelizmente se passa no mundo em diversos locais com diverssos criminosos. Sem a companheira Saga Bauer que se encontra em recuperação de uma acção anterior, neste caso temos um assassino em série que sofre de dupla personalidade sendo que ambas se detestam entre si, motivo, nascimento e educação assistindo e participando em crimes hediondos que, acaba por repetir, mais tarde, com diversas raparigas em idade adolescente, que as detecta, persegue e as mata ou mutila horrivelmente. Como de costume depois de várias e promenorizadamente descritas peripécias de impressionante acção e raciocínio, Joona, consegue juntar as peças deste puzzle com auxílio de um hipnotista e terminar com êxito e muitas baixas, mais este intrincado e macabro caso.

Meio Sol Amarelo de Chimamanda Ngozi Adichie, a guerra na verdadeira acepção da palavra, tudo o que a envolve, o sofrimento brutal, a loucura, a crueldade desmesurada, a frieza, a desumanidade, sobretudo em África, onde a penúria e a pobreza são aberrantes e obscenas. Finais dos anos 60, Nigéria, guerra do Biafra, a loucura humana, o desastre, a indiferença dos países ditos civilizados, a fome indescrítivel, as doenças, o fim escabroso do mundo que é minimamente considerado humano que está inexistente. A descrição próxima de personagens tocantes às quais nos vamos agarrando ao longo do livro, torna-nos testemunhas de um genocídio tenebroso e horrível e que se manifesta em cada página que viramos até ao fim, indescritíveis e inesquecíveis, a Olanna, a Kainenne, o Ugwu, o Odnegibo, o Richard....jamais poderia acontecer algo igual, mas..... acontece.

Pensamento

Viver sem ler seria como viver sem viver!

A Cidade do Vapor de Carlos Ruiz Zafón, ao correr da caneta, recorda-se os passos gigantescos dados por este enorme autor nestes seus contos sobre os livros que enbeveceram o mundo literário. Terminou a sua vida e deixa-nos um legado extrordinário. Sonhamos em cada linha, sonhamos em cada página, sonhamos em cada conto, a sua cidade de vapor, a sua Barcelona, a sua misteriosa, labiríntica e enevoada cidade. Mesmo quem não a conhece, fica a conhecê-la lendo estes livros, Este livro. Grande tributo, obrigado Carlos Zafón.

O Deus das Moscas de William Golding, a mente humana radiografada em situação limite, como age o ser humano perante um evento cuja realidade é dificilmente digerida. Neste livro em particular, W Golding, conta-nos a história de um grupo de rapazes de idade jovem que, na sequência de um acidente pouco esclarecido, queda de avião?, vão parar a uma ilha isolada e deserta, sem a presença de adultos, tantas vezes aqui desejados, e que dadas as circunstâncias são obrigados a organizar-se de modo a sobreviverem enquanto não existir alguém que presumivelmente apareça para os resgatar. Ora se, em adultos essa situação originaria falências de raciocínio com o tempo, num grupo de jovens isso acabou por acontecer e, em poucos dias, o que deveria ser um conjunto todo ele virado para o mesmo fim, transformou-se num caótico agrupamento de miúdos em choque, com medos, rivalidades, personalidades revoltas e exarcebadas que tornaram a convivência impossível. Após algumas vítimas, acabaram por ser salvos, mas com marcas emocionais fortíssimas. Livro brutalmente real!