Pensamento

A minha história é simples. A tua, meu Amor, é bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor. Nasceu à beira de um Poeta...."

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois; mas tão a sós, tão de manso que só escutemos os dois).

Sebastião da Gama

Susana Amaro Velho escreveu O Bairro das Cruzes e deixou-nos uma autêntica pérola com este livro. Uma narração na primeira pessoa, uma história ficcionada do que se passaria num bairro dos arrabaldes de Lisboa, desde os anos 60. O clima envolvente que se vivia nesses espaços habitacionais muito próprios, fechados sobre si mesmo, as amizades, os grupinhos, as intrigas, as mentiras, os segredos, a guerra colonial, Salazar, os comunas, a pide, a pobreza, o glorioso.....a luta diária para conseguir ultrapassar as dificuldades com muito querer e paixão. Frases da Luísa, a personagem central, "...esta não é uma história de amor. Não uma história de amor convencional, por assim dizer. Não tem um casal que se apaixona e tem filhos....com fotografias sépia....é a história da minha infância. Do meu malfadado bairro. E dos meus. Dos que ficaram e dos que se foram. Porque eu serei sempre uma criança. Agarrada a um bairro e a sonhos que nunca morrerão, pois são o combustível que ateia a fogueira...Eu, o meu Bairro e a Rosa...". Comovente.

Operação Shylock de Philip Roth, esplêndido e curioso para além de alucinante este romance ficcionado de Roth. O autor sujeito a um embuste, uma armadilha, após ter passado um período muito devastador a nível clínico. Seguramente iludido e manipulado para se deslocar a Jerusalém numa altura que ainda se encontrava fraco, acaba por se deparar com uma trama na qual ingenuamente se deixa enredar, e com atitudes menos pensadas, irreflectidas e hesitantes, comete uma sucessão de erros que quase o levam a sentir-se vivendo uma ilusão. O aparecimento de um sósia, completamente tresloucado, de um árabe, seu amigo, revoltado com o tratamento que os israelitas sujeitam os palestinianos, diversas situações que se não fossem graves seriam hilariantes no modo como são descritas. No fundo, Roth, põe a nu as enormes fragilidades que existem na convivência entre árabes e judeus. Uma ideia alucianada de diasporismo, isto é, o regresso em massa dos judeus à Europa, após terem sido dizimados durante a II Grande Guerra pelos nazis, em confronto com o sionismo de Herzl.

Pensamento

Os amigos não morrem, andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda, desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não.....nunca partiram!

António Lobo Antunes

Essa Gente de Chico Buarque, nunca tinha lido nada do Chico, para além das belas letras das suas canções, mas eis um livro que li num ápice, escrito de modo poético, dramático e cantado, só podia. A história cronológica, com idas fortuitas ao passado, que nos conta a degradação de um escritor premiado, um declínio que termina com o seu suícidio. Esse declínio deve-se ao desvario emocional, aos frequentes desencontros com as mulheres que ama ou amou, mas das quais se afasta e aproxima frequentemente, também o facto de ter um filho pré-adolescente problemático, o seu Brasil se encontrar num estado de acultura radical, metido numa concha onde as diferenças sociais são gritantes e diariamente alimentadas. As dificuldades financeiras, mesmo depois de ser ultrapassadas não o demovem de uma depressão que o sacode, isola e da qual não vislumbra saída.

Pensamento

Se o coração pudesse pensar......pararia!

💔

Nota do bloguer,

Razões ou não

Uma natural pergunta que se impõe no tempo que vivemos, o que queremos e desejamos para as futuras gerações que supostamente criamos e educamos? Dispomos de tempo, vontade, ideias sustentadas e poderadas pela quais nos orientamos e somos invadidos? Isso será suficiente para indicar aos nossos descendentes como prosseguir um caminho definitivamente mais optimista, com mais e melhor paz, com mais ousadia para mudar....há muito por fazer, coragem para o fazer, liberdade para o fazer, tolerância, respeito pela diferença, força para enfrentar obstáculos, racionalidade, amor....

Conseguiremos? A nossa casa merece, o nosso lar implora, nós mereceremos? Tantas questões, imensar dúvidas!? Muitas....mas vamos lá!!!

O Tempo em que a Luz Declina de Eugen Ruge, um livro que, como vem escrito na capa, trata-se de uma apaixonante saga familiar que atravessa a história da Alemanha no séc.XX. Mesmo o declínio de uma família que nunca atingiu os patamares de uma vida serena. Estamos a falar da RDA e dos problemas despoletados pelo pós-guerra por que passou, a vitória sobre o nazismo, a entrada num regime fechado ao exterior com a debilidade e isolamento que daí advém. Quatro gerações, cada uma à sua maneira, mas obviamente interligadas, que se defrontaram entre si e per si. Wilhem e Charlotte, Kurt e Irina, Alexander, o Sasha e as várias companheiras, Mellita, Christine, Marion e finalmente, Markus.....todos eles declinando, todos eles tentando encontrar um rumo que nem sempre a vida proporciona. Uma luz, afinal, que se inclina para cima, "...as tartarugas já são protegidas...".

Pensamento

O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer.

Carson McCullers

Quando éramos orfãos de Kazuo Ishiguro, segundo livro deste autor magnífico. Belo, comovente, triste! Uma juventude feliz embora distante da terra que o viu nascer, as amizades que vão e partem, o crescimento, a orfandade, o afastamento, o pensamento sempre presente em descobrir o misterioso desaparecimento dos pais, o ter ficado órfão, o cuidar de uma orfã que lhe surge do nada e que irá eventualmente ser o seu amparo na velhice, uma ternura passageira mas não menos marcante por alguém que igualmente é orfã. O personagem, Cristopher, nunca desistiu, sofreu com o resultado das suas pesquisas, decepcionou-se com pessoas que amou e criou laços, o mundo mostrou-lhe o pior do homem no terrível conflito sino-nipónico. A vida demonstrou que nos pode levar à orfandade permanente. Encontrou, no futuro, paz na sua vida? Sim, com estilhaços do passado, mas sim! Uma frase (pág.316), "a nossa infância parece uma terra estrangeira depois de crescermos".

Vou recorrer a Luísa Sobral, em mais um poema desta cantora, compositora que adoro,

A Pergunta

Há pergunta persistente, Uma questão sobrevivente, De toda e qualquer entrevista, Pode parecer algo banal, Para quem leia o jornal, Pode nem saltar à vista.

Como consegue conciliar, as viagens, o lar? E a pergunta derradeira, Visto a mulher independente, Mas a culpa inerente, Acorda a minha alma inteira.

Que querem saber realmente? Se choro copiosamente, Cada vez que vou embora? Ou se me é tudo indiferente, Por viver tão e somente, Para cantar por aí fora?

Pois informo, sem lamento, Não sou mulher culpada, Sou só mulher julgada, Por quem nada sabe do meu lar, Sou bem realizada, Mulher feliz e afortunada, Por este ser o meu lugar.

E no fim do desabafo, Sei que o que mais me inquieta, Nesta questão não questão, É de nunca ser colocada, Nem sequer ser mencionada, Aos homens na minha situação.

Ps: "Quem fica com as crianças?", É a pergunta que se segue, O Pai não é opção, Porque ele sim tem profissão, Porque sozinho não consegue!