A Ilusão de Merit de Colleen Hoover, um livro terno sendo que a história baseia-se numa descrição de uma personagem, Merit, e de uma família completamente disfuncional, todos com segredos, que acabam em terapia que peca por ser tardia. O livro vai, em cada página, surpreender-nos com uma disfunção profunda de cada um dos participantes de uma família que começa por praticamente não se dar e acaba, finalmente, através de um acto impensado, gratuito, mas que podia ter acabado muito mal por transformar aquilo que parecia impossível em algo possível, o entendimento de todas as diversas facetas à priori, estranhas, depois normais. (4)

O Senhor de E L James, um romance em que se unem duas fortes componentes, o amor e a grande sensualidade, descrição muito arrojada dos actos sexuais e a luta constante, perante tudo e todos, inclusivé a própria consciência de ambos os amantes que acabam por contrair matrimónio no último local em que tal se podia supor. Culturas e estratos sociais diferentes, paixão desmedida. Curioso, ligeiro, divertido, com suspense e sob uma fotografia paisagística de locais magníficos como a Cornualha. Momentos. (3)

Já Ninguém chora por mim de Sérgio Ramirez, livro onde prevalece uma brilhante ironia que nos entretém do princípio ao fim, a excelente qualidade deste escritor destaca-se, exactamente, no facto de tocar num assunto delicado, a fuga de uma jovem por ser vítima de abuso sexual por parte do padrasto com um silêncio sofredor mas cúmplice da sua mãe. Conjuga também o humor na descrição do ambiente onde o romance ocorre, na Nicarágua que recentemente ficou na mão dos sandinistas, período de transição onde a pobreza e as guerrilhas faziam parte do dia a dia. Uma nota final, que considero de inteira justiça apontar, a utilização de uma personagem amiga (Lorde Dixon) da figura principal, o inspector Morales, que depois de aquele ter falecido, está sempre presente na sua consciência com comentários e conselhos jocosos e hilariantes. (4)

1793 de Niklas Natt och Dag, um thriller magnífico que se torna robusto e mais forte devido à época em que tem lugar, finais do séc.XVIII, com tudo o que isso comporta em ambiente, mentalidades, gente escabrosa mental e fisicamente, doenças, Estocolmo velha, pobre e suja. O receio por parte da oligarquia sueca de ter o mesmo fim que tiveram em França, quatro anos antes, na revolução de 1789. Ventos perigosos. Mas, o mais importante, a investigação persistente, extremamente meticulosa por parte de um homem às portas da morte e de um ex-guarda muito forte mas com deficiência física, de um crime aparentemente insolúvel. Finalmente a descoberta que, mesmo os monstros podem ter um pingo de humanidade nem que sejam levados a isso por uma mentira piedosa. (4)

O Fantasma de Hitler de Norman Mailer, não me tendo defraudado, este autor, ficou um pouco aquém da obra inolvidável (Os Nus e os Mortos). Muito místico, tornando os humanos guiados por doses fortes de deus e diabo, "bem" ou "mal", a família, o incesto, a revolta, a homosexualidade. Filhos de uma relação incestuosa de um tio com uma sobrinha....a loucura segundo a ciência dá para o torto, nem o amor, nem a vontade salvam o óbvio. Em resumo, uma história que faz reflectir sobre as possíveis variáveis que podem influenciar o comportamento humano isolada ou socialmente. (4)

Fim d'época de Lourenço Pereira Coutinho, sabe sempre tão bem ler um livro sobre história, este aborda os anos que antecederam o fim da monarquia, as lutas internas entre partidos conservadores, progressistas, regeneradores que foram crescendo num regime relativamente aberto mas sempre criando muitas questiúnculas. O reinado de D.Carlos foi muito condicionado pelas questões económicas, os percalços africanos com a constante ameaça de um conflito com a Inglaterra a propósito do mapa cor-de-rosa, da dificuldade crescente de entendimento entre as várias facções republicanas. Esta história segue até ao regicídio, é personificada por duas personagens, Miguel e José, que no fim se descobre que são pai e filho, que tiveram vidas bem diferentes e sem nenhuma aproximação, acabando o "revolucionário", José, a pôr termo à vida do seu pai, o monárquico conservador, Miguel. (4)

Pensamento

Quem nos deu asas para andar de rastos? Quem nos deu olhos para ver os astros? Sem nos dar braços para os alcançar?

Florbela Espanca

Jogo Curioso de Roger Vailland, livro deveras interessante sobre a vivência da resistência francesa durante a II guerra mundial, a coragem, a insolência, o descaramento que faziam parte do dia a dia destas personagens que muito deram de si para que a França voltasse a ser livre, corroendo por dentro o regime nazi e os seus colaboracionistas de Vichy. Presentes, mas com muitos cuidados apertados entre eles próprios por causa da delação, também ela presente nestas páginas emocionantes. Mais uma parte da história desta época incontornável que fiquei a conhecer, ainda melhor. Tratando-se de seres humanos, mesmo entregues a uma causa, não deixam de se comportar como tal e acabam por se magoar no meio de uma luta comum. (3)

A Balada do Medo de Norberto Morais, muito curioso, por um lado por abordar o tema do medo, por outro, pela linguagem utilizada, ligeira mas floreada que roça a ironia e consegue na realidade focar uma matéria que transforma as pessoas por completo, porque ao passarem a vida envoltas em medo da própria sombra, deixam de ser elas, para serem um corpo que luta por mais tempo sem viver esse tempo. O medo por a consciência estar cheia de situações pecaminosas, por reagir com com cobardia, impulsiva e não racional, leva-nos a viajar pela mente de um homem onde o pânico é um parasita. Como referi, a linguagem, os episódios, que repito, tocando num tema capital, o faz com ligeireza. (4)

A Livraria dos dia Passados de Amy Meyerson, um livro que nos faz passar uns momentos ligeiros de leitura, amar ler um livro é isto. Uma história de família com as suas desavenças, os segredos sobre o passado que se vão adiando com o medo de magoar, traumatizar mas, que podem levar a que as pessoas fiquem revoltadas quando acabam por saber a verdade, muitas vezes, uma verdade brutalmente dolorosa que transforma o passado em ficção, a omissão pode ser má. Interessante como se fala de livros, como eles são ao longo das páginas deste, pistas para descobrir um enigma, o desenlace e que que nos leva a seguir esse caminho, acompanhando as personagens com carinho e incentivo. (3)

A Noite em que o Verão acabou de João Tordo, um thriller português, escrito por um português, João Tordo, passado em Portugal e nos EUA, que aborda uma noite de crimes, dois, relacionados, consequentes e no mínimo estranhos, inculpando uma menor, filha de uma das vítimas. Assim, o drama anda circulando à volta dessa nefasta noite de 1998, e no tentar descobrir, como e quem perpetrou os dois homicídios. Interessante o argumento, algo rebuscado no final, que mete, inevitavelmente, suspense, paixão, intriga e muitas dúvidas por motivos do estatuto social dos envolvidos. Como refere o autor na página 655 "....uma história de amor. Ou mais que uma. E o amor é, será sempre uma coisa inexplicável. É o lugar onde todas as coisas nascem e onde todas as coisas perecem e manifesta-se de tantas maneiras diferentes, pais e filhos, amantes, amigos, que é impossível metê-lo nas páginas de um livro, sobretudo porque o amor é também caos e dispersão, é também miséria, ódio, traição, sexo, ambição e inveja. É tudo, está em toda a parte e não pode ser encontrado." (4)

Se o disseres na Montanha de James Baldwin, misticismo, sofredor, redentor, um bom livro, segundo dizem, um grande, talvez o melhor e primeiro romance deste escritor, que aborda de um modo muito seu, místico, complexo, o modo como se tenta libertar de algo que nos acorrenta e que nos torna pequeninos nessa tentativa. Ter força onde parece não haver.... soltar amarras muito pela fé e pelo interior que nos forma e consubstancia. (3)

 

Pensamento

Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo, dromedário, fogueira de exibição, teorema corolário, poema de mão, lãzudo publicitário, malabarista, cabrão. Serei tudo o que disserem: poeta castrado, NÃO!

Ary dos Santos

Os dois melhores livros que li no final de 2019 que hoje chega ao fim. Obras soberbas, gigantescas, maravilhosas, comoventes.

Donna Tartt oferece-nos uma obra prima, O Pintassilgo! Gigantesco em tudo este livro, na dimensão, quase 900 páginas e imenso na substância. Nem tudo encaixa na vida, de súbito, tudo desmorona e esse facto acompanha a vida sempre lado a lado. À perda da mãe, de quem tinha uma especial adoração, num atentado onde ele, o personagem principal, também estava presente, fez com que Theo a partir daí visse a sua vida desmontar-se em cacos dificilmente passíveis de união. No meio do caos originado pelo atentado, ficou ao lado de um velho moribundo que acabaria por lhe guiar o futuro através de um quadro, "O Pintassilgo" e de uma miúda, Pippa, que igualmente sobreviveu à explosão, a um futuro incerto, isolado, disperso, perigoso mas onde criou, com sorte ou sem ela, amizades e onde também as perdeu, para no fim termos uma fantástica retrospectiva do passado com penitência do que fez, mas com o pensamento, não no que poderia ter feito, mas como justificação para o que fez.

Um hino ao bem escrever, fabuloso livro de Isabel AllendeA Longa Pétala de Mar, uma grande parte marcante do séc.XX, desde a fratricida guerra civil espanhola até ao golpe militar no Chile que derrubou uma democracia socialista eleita nas urnas em liberdade, em que Salvador Allende tentou o impossível, os inimigos eram muitos e poderosos, nomeadamente os americanos e uma oposição conservadora e exarcebadamente católica, igreja que até defendia a tortura. Todo este hino em páginas, tem um elo de ligação, personagens notavelmente criadas por Isabel Allende de um modo comovente, modo real, em que junta feitios muito diferentes que se cruzam e com a força que o amor dá, enchem a alma. Gente que se reuniu e uniu, lutou, sonhou, sofreu por um mundo melhor e onde Pablo Neruda e Salvador Allende por muito por esse fim fizeram, sem êxito. Um livro enternecedor, sofrido, é certo, mas revestido a ouro pela esperança e pelo perdão. Naveguemos nele.

2020

Que o ano de 2020 nos traga o prazer de ter paz, em que o nível de responsabilidade das pessoas cresça, que se preocupem mais com a sua casa, a Terra, não temos sítio para onde ir, temos que preservar o nosso lar, e temos de o fazer com convicção, com ética, com carinho e com luta. Tenho muita esperança nas novas gerações, que consigam reverter os erros que a actual e anteriores gerações foram cometendo. 

A nossa casa está a arder!......

Morte na Primavera de Ralf Rothmann, mas que livro, mas que mais dura realidade, a desumanidade. Finais da II Grande Guerra, o desespero dos derrotados, com os russos de um lado e os americanos e ingleses do outro e o que isso provocou. Fugas, deserções, suicídios, loucura embriagada e sobretudo a crueldade que levou à recruta de jovens imberbes, lançados às feras, autêntica carne para canhão, sem qualquer tipo de preparação. A morte brutal, sanguinária, sem pingo de piedade, onde o quanto mais se sofre e o consequente espezinhar se torna o pico da vergonha humana. Um fim com uma pequeníssima luz.....

Milkman de Anna Burns, diferente, sui generis, este livro que é passado durante o conflito na Irlanda entre católicos e protestantes, tempo quente do IRA, é escrito de um modo completamente inovador, contado na primeira pessoa, neste sentido já houve mais deste género que tenha lido, mas sobrevoando as personagens anonimamente, tipo, irmão número três, namorado mais ou menos, porque não se tinham declarado totalmente, e por aí fora. deleitamo-nos com a narração carregada de humor e sarcasmo que subtrai e mesmo apaga as imagens do forte drama daquele conflito sempre latente. Milkman é no fundo a figura que atravessa todas as outras espelhadas no livro, como um rebelde anti-governo, um paramilitar, uma figura que personifica no livro.....o "coiso e tal". A irmã do meio, a feliz narradora, enquanto nesse papel, é brilhante. Bastante inovadora a escrita.

Um intervalo para poesia

Este poema foi escrito pela minha cantora portuguesa preferida, Luísa Sobral, e com a devida vénia, reproduzo.

Sei-te

Sei-te cá dentro, Tão pequenina, Sei-te mulher, Ainda menina

Sei-te tão minha, Nesta casa recente, Neste quarto alugado, Neste ninho de gente

Sei-te tão sábia, Do que vais encontrar, Do teu espaço no mundo, Nos meus braços..no lar

Sei-te serena, Nesta tua viagem, Eu só quero receber-te, Lá na outra margem

Sei-te adorada, Querida, esperada, Sei-te banhada, De um amor sem fim

E sei-me rendida, Por uma vez mais, A vida fazer, Uma mãe de mim

Há momentos felizes......ler este livro foi um deles sem dúvida. E onde? Sagres!

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios de Marçal Aquino, um autêntico hino ao amor, seja porque lado se queira ver. Pela paixão carnal, pelos olhos, pelos gestos, pela sensualidade, pelo erotismo, pela dor por cada minuto de ausência, pelo pecado assumido, pela beleza, pela subtileza, pelo desgaste, pela violência, pelo retorno. Este livro tem tudo o que diz respeito ao arrebatamento, todos os pormenores esmagam, desabam sobre nós, deixando-nos entrar no livro como uma personagem que quer e deseja intervir. É absolutamente inesquecível cada descrição que nos arrepia e comprime no sentido de amar Lavínia e Cauby. Uma palavra para a gigantesca presença das outras histórias paralelas que servem para pintar, realçar de modo descomunal Esta. Arrebatador.

Última Paragem, Auschwitz de Eddy de Wind, monstruoso o que se fez, monstruoso como se fez, monstruoso porque se fez! Este livro escrito por quem sobreviveu ao horror, uma raridade, diria que era mais do mesmo, relativamente aos inúmeros livros lidos e publicados sobre esta negra e incontável página da história recente. Mas, há sempre mais qualquer coisa que nos revolta e nos faz pensar que se está a ler um livro de ficção de terror. Mas não, foi verdade, é esta vontade indomável de contar a verdade do que se passou nesses campos de morte e sofrimento indescritível, que muitos tentaram o impossível, sobreviverem ao inferno. Muitos desejaram o óbvio, morrer, porque "viver" assim não o era, era desfazer-se aos poucos de tudo o que temos, corpo, dignidade, lucidez, sendo que roda dentada da SS era isso mesmo, dentada. Como é possível aos que fizeram aquelas acções inenarráveis, conseguir viver com elas no espírito? Os que lá entraram morreram várias vezes, todos os dias iam morrendo....a humanidade foi séria e definivamente ferida por esta monstrusidade.

Pensamento

Mas o que é saudade? - perguntou a Menina do Mar.

A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Irmãs Soong de Jung Chang, portentoso livro histórico, sim, estamos perante um colossal livro sobre a história da China, "vista e contada" através dos olhos, atitudes, postura e influência de três mulheres, três irmãs, que viveram e cresceram ora juntas, ora separadas, ao longo de um século, deixando uma marca indelével no percurso sofrido deste gigantesco país e do seu povo. Uma frase do livro, pág. 371, proferida, numa carta enviada a uma sua amiga de sempre, Emma, pela irmã mais nova, MayLing, diz muito da força deste livro e do carácter destas mulheres, "O importante não é o que acontece, mas a maneira como reagimos ao que acontece". Três filhas de um casal ponderado e católico com educação ocidental, EiLing, ChingLing e MayLing, cruzam e influenciam a evolução da China desde o fim do Império Manchu que tinha sucedido ao império Ming, passando pela instituição da república, através da acção de Sun-Ya-Tsé, "O Pai da China", com o qual casa a irmã do meio, a irmã vermelha, que iria aderir, mais tarde, ao movimento liderado por Mao e a toda a mudança e sofrimento a ele associado, ao período do nacionalismo de Chiang-Kai-Sek, com o qual contraiu matrimónio a irmã mais nova, a mais impulsiva, corajosa, exaltada, uma MayLing majestral que acompanhou o marido, meio louco e com tiques fortes de ditador, nas vitórias e derrotas com o Japão e os comunistas, e a mais clarividente, matriarca e serena, a irmã mais velha que nunca as desprotegeu, sempre preocupada em as unir, EiLing.

Lisboa Reykyavik de Yrsa Sigurdardóttir, eis um clássico de suspense e de terror, numa viagem que ainda está nos meus planos, com origem e destino, mas nunca de barco e muito menos agora, depois de ter lido arrepiado este livro, em pele de galinha, mesmo. Partida de um iate de luxo de Lisboa para Reykyavik, com três tripulantes e quatro passageiros que se precipitaram nitidamente ao escolherem este meio de transporte de regresso à sua pátria, que até, diria eu, poderia ser uma boa experiência, mas que se tornou num pesadelo. Chegada a Islândia sem ninguém a bordo, uffff.....ora o drama passa-se na descrição simultânea do que ia decorrendo no barco durante a penosa viagem e o que à posteriori ia sendo investigado após a chegada do iate desgovernado ao porto de Reykyavik. Final trágico, aterrado....motivo, como quase sempre, a ambição, o dinheiro. Resultado, o medo, a desconfiança, o pânico, a demência, a morte!